Rua dos Bragas, 223: Fevereiro 2010

Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Recordando sábias palavras!

Em plena época de exames, concretamente no passado dia 13 de Janeiro, publiquei aqui um Post intitulado "O papel do juíz na interpretação da lei, pelo Prof. Dr. Vaz Serra". Nele, recomendava a leitura de um artigo correspondente ao discurso proferido pelo Professor Dr. Vaz Serra no supreno Tribunal de Justiça, por ocasião da inauguração de um novo ano judicial, a 1 de Outubro de 1940, na qualidade de Ministro da Justiça.

Desse discurso transcrevo as sábias palavras iniciais:

Abrem-se, hoje, solenemente, os trabalhos judiciais e esta sessão destina-se a chamar a atenção de todos os que intervêm na actividade dos tribunais para a grandeza dos objectivos que servem e para a alta função em que colaboram.

Esta é, pois, como que uma reünião magna da família judicial, para que foram convocados, não só aqueles a quem cabe administrar a justiça, mas todos os que com êles cooperam. É a todos que se dirigem, antes de mais nada, as minhas saüdações, com o respeito merecido aos que exercem nobremente uma função que, pelos fins a que visa, não poderia ser mais elevada e, pelo esfôrço que exige quando bem exercida, mais espinhosa e torturante.

No limiar dos novos trabalhos, convém que nos recolhamos um momento, para meditarmos sôbre as responsabilidades da nossa condição, e nos prepararmos, com ânimo puro e reflectido, para as duras tarefas que nos esperam.

As vossas profissões são daquelas que requerem um permanente exame de consciência. Todos aqueles que alguma vez tiverem que julgar, promover, aconselhar ou pleitar, e o fizerem com o propósito de honestamente encontrarem a solução recta, sabem como é difícil, e pode ser angustioso, por entre os interêsses divergentes das partes, o ambiente de paixão em que se desenvolve o litígio e a complexidade do direito, descobrir a verdade e, depois, a norma que deverá ser aplicada à hipótese controvertida.

Trata-se, meus Senhores, de profissões que só por vocação podem ser exercidas e que reclamam, por isso, naqueles que as escolhem, um chamamento de consciência, uma aspiração superior, um fogo espiritual bem vivo, que os solicite, através dos interêsses que se degladiam, para as idealidades, para os valores.

Faz-se mister que todos tenham sempre diante dos olhos que a sua actividade deve dirigir-se à descoberta da verdade e à solução acertada, por muito que isso custe o sacrifício de quantas tentações possam procurar desviá-los daquele caminho. Quem assim não fizer, atraiçoará o Estado, a comunidade nacional e os particulares que nêle confiaram, e tornar-se-á, por conseguinte, indigno de servir uma função que foi criada para dar a cada um o que fôr seu.

E, pois que é preciso, para vencer todos os obstáculos que podem opôr-se a êste resultado, muita fôrça de vontade e uma alma bem formada, serena e esclarecida, pode dizer-se que hão-de ser excepcionais, constituindo um verdadeiro escol, uma magistratura moral e intelectual, as pessoas a quem devem ser entregues tão árduas, mas também tão honrosas funções.

Pelo Professor Dr. Vaz Serra, 1 de Outubro de 1940.

O texto completo podem econtrá-lo aqui no blogue, ou no site da Ordem dos Advogados.

Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

A Vida passa num fósforo! Acende com ela uma vela de Amor...

Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Era uma vez um alferes

Mais um passo na picada, menos um passo para Lisboa, dizia o alferes para consigo, convencendo-se de que, a cada passo, deixava para trás um pedaço de África. O ritmo do andamento dos homens, dispostos pelos trilhos em duas colunas, era, pois, o toque pendular do relógio que assinalava o tempo do regresso. Entretengas de tropa... modos de não pensar em nada e de ir negaceando os medos.

Este excerto constitui o primeiro parágrafo de um pequeno conto publicado em livro por um dos grandes mestres do romance português contemporâneo: Mário de Carvalho. Infelizmente, não tem no grande público o reconhecimento que, quanto a mim, merece.

É extensa a lista de obras publicadas por Mário de Carvalho, e para conhecê-las basta fazer uma pesquisa na Internet. Entre tantos, destaco os romances "Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde" e "Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o assunto".

Mário de Carvalho licenciou-se em Direito, em 1969, pela Faculdade de Lisboa, antes de se dedicar ao jornalismo.

É tão pequenino o conto de que vos falo, "Era uma vez um alferes", que o autor o publicou conjuntamente com outros dois - "A última cavalgada" e "Há bens que vêm por mal" - num mesmo livro intitulado "Os Alferes", da editorial Caminho. Por isso o escolhi, para uma primeira aproximação ao escritor e ao seu estilo único (para aqueles que o não conhecem, claro), insusceptível de se enquadrar numa típica escola literária. Qualquer estudante de direito, habituado a ler resmas de páginas por dia, lê qualquer um destes contos em menos de um fósforo.

Segue-se, pois, mais um pequeno excerto que revela o despoletar da acção do conto anunciado:
Um estalido metálico, seco, nítido, deflagrou no ar. A fila imobilizou-se. Meio dobrados sobre as automáticas, os homens esquadrinhavam todos os recantos, numa tensão feroz e atenta.

Bem a meio da picada, o alferes não se moveu. Estava parado, muito direito, os dois braços ligeiramente afastados do corpo, o rosto petrificado fito em frente. Suspendia a arma pelo tapa-chamas como quem assegura um contrapeso para um problemático equilíbrio.

― Pisei uma mina! Pisei uma mina, caraças! ─ repetiu, quase sem mexer os lábios para o furriel que se aproximava, inquieto, e havia nas palavras do alferes um tom de profunda tristeza, mais que grave ou compenetrado.
― Meu alferes, por amor de Deus, não se mexa ─ agitou-se o outro com largos gestos tranquilizadores.

Durante uns momentos, o entendimento do alferes ficou totalmente embaciado, como se ele estivesse muito longe dali, imune à agitação em volta.
Esta é a minha sugestão de leitura para o final de semestre. Leiam o conto logo que possam e espero que gostem e se divirtam porque (já sabem) o melhor é aquele que se diverte mais!

 
BlogBlogs.Com.Br