Rua dos Bragas, 223: Abril 2011

Sábado, 23 de Abril de 2011

Procura-se um amigo

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes

Sexta-feira, 22 de Abril de 2011

Dia Mundial da Terra - 2011


O MUNDO PARA COLORIR
Esta Imagem é para colorir! Clica nela, imprime-a e pinta-a a teu gosto.

Terça-feira, 19 de Abril de 2011

A vida em sociedade é como uma viagem numa gigantesca pista de carrinhos de choque

É verdade, meus amigos, a vida em sociedade, actualmente, nas ditas sociedades ocidentais ou desenvolvidas, tornou-se uma aventura comparável a uma viagem numa imensa pista de carrinhos de choque.

Imagine-se a entrar numa gigantesca pista de carrinhos de choque, pejada de carros e condutores eufóricos, decididos a tirar o máximo partido da curta viagem, e teimar em cumprir com rigor, naquele espaço concebido especificamente para o divertimento, as regras do Código da Estrada.

Das duas uma (ou ambas): ou não se diverte nada ou leva porrada de todos e de todo o lado ao ponto de a viagem que aos outros parece demorar apenas alguns segundos de hilariante divertimento a si lhe parecer uma eternidade, um infindável aborrecimento, ou mesmo um tormentoso suplício, chegando a desejar ejectar-se do bólide antes do inexorável toque final da viagem.

Assim acontece com quem passa a vida a jogar à defesa, a cumprir todas as regras, a teimar em não se divertir, numa palavra, a não saborear a vida com alegria.

Nestas mini férias da Páscoa tentem divertir-se porque, como já disse e não me canso de repetir, em tudo o melhor é aquele que se diverte mais!

BOA PÁSCOA!

Sábado, 16 de Abril de 2011

TROIKA


Domingo, 10 de Abril de 2011

Bulldozers (ultra)liberais abastecem os seus tanques e perfilam-se para arrasar (definitivamente) o Estado Social

O título diz tudo e mais não tinha necessidade de acrescentar (até porque o tempo é de economia).

Mas vou usar de uma metáfora (ou imagem) para ilustrar o problema:

Enquanto se deslocava de casa para o atelier um conceituado pintor sofreu uma queda da sua bicicleta após ter sido apanhado por uma violenta tempestade.

O veículo utilizado não era o mais adequado para resistir às fortes rajadas de vento e chuva intensa, além de que tinha ainda que suportar as violentas projecções de água e gravilha acumuladas na estrada provocadas pelos veículos pesados com que se cruzava, umas fortuitas mas a maioria voluntárias e deliberadas, puras manifestações de crueldade dos condutores desses veículos com o objectivo claro e único de derrubar o desprotegido e incauto ciclista.

O facto é que, apesar da temeridade e da estóica resistência, o talentoso artista acabou por se estatelar no asfalto, impotente face aos esforços macabros dos pançudos que se divertiam com a sua desgraça, e o resultado foi que acabou no hospital com escoriações em vastas áreas do corpo e os dois braços partidos.

Vendo-se assim desprotegido e abandonado pela providência, não foi difícil deixar-se convencer pelos arautos da desgraça de que era «preferível amputar os braços e aprender a pintar com a boca ou com os pés do que persistir em pintar com os braços defeituosos; que nunca mais voltaria a pintar como dantes; que iriam rir-se do seu trabalho e sentir pena dele, etc., etc., etc., blá-blá-blá, blá-blá-blá».

E tanto lhe martelaram os miolos que às páginas tantas começou o próprio artista a implorar para que lhe amputassem os dois braços. E o desejo foi-lhe concedido.

Passaram-se os anos e o triste pintor apercebeu-se de que todo o seu corpo recuperara a vitalidade primitiva, o seu potencial criativo e criador aumentara, fruto da maturidade, mas a técnica que os seus braços lhe facultaram no passado não os pôde nunca mais superar pincelando com a boca ou com os pés. Vivia agora da venda de umas brochuras ilustradas e postais nas quadras festivas como a Páscoa e o Natal, mas o seu nome passou ser pronunciado baixinho e com pena e nanja com a reverência do passado.

Desgostoso, quis os seus braços de volta, mas eles nunca mais voltaram. Não morreu de fome! É verdade. Sobreviveu! Sim, também é verdade. Mas o mais importante morrera e não mais conseguiu de volta: a dignidade!

A sua dignidade foi amputada junto com os braços pela razão simples de que se deixou enganar.

Ora, neste momento Portugal e os portugueses estão como o pintor na cama do hospital, só que não a implorar que lhes amputem os braços mas para que arrasem perpétua, irreversível e definitivamente o Estado Social.

O problema é que enquanto estivermos acamados no hospital os gigantes, além das meladas e doces palavras, ainda nos trazem frutos frescos à boca: figos, cerejas, bananas, pêssegos, maçãs, de tudo um pouco. O problema vai ser quando o médico nos der alta e verificarmos que, sendo nós pigmeus de metro e meio e agora ainda por cima sem braços, não competimos de igual para igual ou, dito de outra forma, com igualdade de armas, na apanha dos frutos, no topo das árvores, com os gigantes de três, quatro, cinto, seis e mais metros.

Uma verdade (pelo menos uma) eles nos dizem: os frutos estão lá no alto disponíveis para todos nós. E, verdade seja dita ainda, o gigante não têm culpa de eu ter nascido pigmeu.

Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

ADIRAGRAM

Momentos doces acontecem quando menos os esperamos,

Alguém que passara despercebido, subitamente torna-se estrela brilhante.

Regras rígidas revolvem-nos a consciência agrilhoada,

Gritos contidos perfilam-se na garganta e pedem ordem de expulsão.

Alguém nos sussurra uma palavra de alento devolvendo-nos a paz,

Renova-se a esperança e o sorriso regressa.

Irreverentes pensamentos apontam-nos o caminho.

Dedos entrelaçados viajam na fantasia,

A dois! Felizes!

Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Aprendo com os meus filhos... até economia

Há dias lamentava-me, perante um círculo de amigos e familiares, da exasperante displicência, falta de profissionalismo e total ausência de sentido de responsabilidade de alguns trabalhadores que nem o momento de grave crise económica e carência de emprego consegue alterar.

Não importa aqui e agora lembrar os múltiplos exemplos que citei. Vou apenas pegar na última frase que proferi antes da intervenção da minha filha mais velha (treze anos) sobre essas minhas palavras.

Referindo-me à má cara e má vontade de alguns empregados de balcão em servir os clientes disse eu: «Até parece que nos fazem um favor em nos servir, parece que não pagamos o que nos servem, parece até, por vezes, que são eles que estão a pagar-nos o que consumimos!»

Foi neste momento que a "pequena economista" sentenciou: «Então, pai, não é difícil que eles pensem que te estão a pagar as coisas, pelo menos em parte. Então, se os empregados ganham 500 € por mês, por exemplo, e o patrão com eles ganha 5 000 € ou mais [subentenda-se lucro], é normal que eles entendam que deviam ganhar pelo menos 1 000 €, para se fazer alguma justiça. Se em vez dos 1 ooo € que deviam ganhar, afinal só ganham metade, então é normal que pensem, quando servem as coisas aos clientes, que com a outra metade estão a pagar uma parte do que os clientes consomem! Assim, não admira que trabalhem insatisfeitos, porque não vêm o seu trabalho recompensado»

É claro que esta intervenção conduziu a desenvolvimentos na tertúlia simultaneamente sérios e hilariantes entre os convivas. Fico-me, no entanto, por este pequeno registo para memória futura. Para que nos possamos rir e, quem sabe, desenvolver mais aprofundadamente esta matéria. Quem sabe se tenho uma verdadeira economista em casa.

Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

Lição de Economia para iniciados

Um viajante chega a uma cidade e entra num pequeno hotel. Na recepção, entrega duas notas de 100,00 euros e pede para ver um quarto.

Enquanto o viajante inspecciona os quartos, o gerente do hotel sai correndo com as duas notas de 100,00 euros e vai à mercearia ao lado pagar uma dívida antiga, exactamente de 200,00 euros.

Surpreendido pelo pagamento inesperado da dívida, o merceeiro aproveita para pagar a um fornecedor uma dívida também de 200,00 euros que tinha há muito.

O fornecedor, por sua vez, pega também nas duas notas e corre à farmácia para liquidar uma dívida que aí tinha de... 200,00 euros.

O farmacêutico, com as duas notas na mão, corre disparado e vai a uma casa de alterne ali ao lado liquidar uma dívida com uma prostituta. Coincidentemente, a dívida era de 200,00 euros.

A prostituta agradecida, sai com o dinheiro em direcção ao hotel, lugar onde habitualmente levava os seus clientes e que ultimamente não havia pago pelas acomodações. Valor total da dívida: 200,00 euros. Ela avisa o gerente que está a pagar a conta e coloca as notas em cima do balcão.

Nesse preciso momento, o viajante retorna do quarto, diz não ser o que esperava, pega nas duas notas de volta, agradece e sai do hotel.

Ninguém ganhou ou gastou um cêntimo, porém agora toda a cidade vive sem dívidas, com o crédito restaurado e começa a ver o futuro com confiança!


Sábado, 2 de Abril de 2011

Deitar fora é que não...

O indivíduo entra em casa muito mal disposto, a disparar impropérios contra o vizinho, qual spitfire contra "caças" nazis.

O que se passara, quis saber a mulher, enquanto o auxiliava com a pesada carga que o vergava?!

Era simples! O vizinho do rés-do-chão, mal o vira entrar na portaria, pregara-lhe com aquela pesada caixa de limões às costas dizendo com forçada simpatia e mal disfarçada ironia: «Leva para cima estes limões que trouxe lá da terra, caseirinhos... porreirinhos para temperarem os bifes!»

Até aqui nada de anormal, não fosse o facto de o vizinho saber perfeitamente que aquele casal e os seus cinco filhos há muito não deviam saber o que era cozinhar um bife em casa.

A mulher, serena, sem se deixar perturbar pelo "bailado" frenético do homem que não parava de cerrar os punhos e rilhar os dentes de raiva, capaz de voltar lá abaixo esmagar o nariz ao "nazi" petulante, disse, simplesmente, com um ar maternal:

―Os miúdos vão adorar as belas limonadas que vamos fazer com estes limõezinhos! Deixa lá, homem, não há bifes para temperar, faz-se limonada! Deitá-los fora é que não...

Fonte: Um livro não escrito!
 
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