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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

FUNDAMENTOS!

Já disse aqui que gosto muito de índices, não disse? Julgo que sim. As razões são múltiplas mas são tão íntimas que não importa falar delas porque não interessam a mais ninguém, só a mim.

Hoje, sem saber porquê, no meio de pensamentos vagos, melancólicos, a propósito de tudo e de nada mas muito preocupado com a crise de valores da sociedade, que é transversal a toda ela mas com consequências mais acentuadas em sectores vitais como sejam o da Educação o da Saúde e o da Justiça, dei comigo a pegar no livro Direito Constitucional Anotado, do nosso mui estimado Prof. Doutor Paulo Ferreira da Cunha, e a folheá-lo, não ao acaso mas confiante na certeza de que os meus dedos me levariam com segurança ao que "sem saber porquê" procurava.

Página 116 (1ª edição, Quid Juris editora, 2008), "hierarquia dos entes jurídicos". Lá está: «Os princípios estão, na hierarquia dos entes jurídicos, entre os valores, que são mais vastos e primeiros, e as normas, que são mais concretas e derivadas».

TÍTULO II – FUNDAMENTOS DA REPÚBLICA E DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS;

PARTE I – Valores; PARTE II – Princípios Constitucionais; PARTE III – Normas, Direitos e Deveres Fundamentais.

Temos assim que os Valores, os Princípios e por último as Normas, constituem o Fundamento da República e dos Direitos Fundamentais. Transpondo para o plano individual teremos os valores, os princípios e as regras como Fundamento da Personalidade.

Ocorre, porém, que cada vez mais os indivíduos procuram a excelência técnica, imprescindível para a competição desenfreada no mercado de trabalho (para serem os melhores técnicos), dominando todas as técnicas, conhecendo todas as normas, mas são esquecidos com demasiada facilidade os Valores e os Princípios.

Esta é uma forma tosca de exprimir um pensamento vago mas que me preocupa. E perdoe-me principalmente o Professor Paulo Ferreira da Cunha por tê-lo citado, bem como à sua obra, pois poderei não estar à altura de dignificar as suas "lições" que são para mim uma referência. Mas ocorre que, para além de ter valores, ter princípios e ser conhecedor das normas é também imperioso procurar e ter (boas) referências. É isso que eu procuro fazer todos os dias, pois nesta fonte (que eu sou) bebem todos os dias três maravilhosas crianças: os meus filhos.

P.S.: Este é um daqueles textos que espero bem que ninguém leia. Pura perda de tempo.

sábado, 3 de julho de 2010

Venturas e aventuras de Gunaldo de Liliputugal!

Um amigo meu prepara-se para editar em livro (com sérias probabilidades de vir a ser adaptado ao cinema, porque já tem propostas) as empolgantes venturas e aventuras de um jovem liliputuguês que muito novo saiu do seu país natal (Liliputugal, um país minúsculo de gente pequenina) atraído pelas calóricas euriguarias do país vizinho (e rival também, por sinal), onde cresceu e o fizeram importante.

Tanto cresceu e tão grande ficou, o herói desta entusiasmante quanto surpreendente estória que promete aquecer o verão 2010, e gelar (de vergonha) as gerações vindouras, tão grande ficou Gunaldo, dizia, que as camisolas do seus irmãos deixaram de lhe servir (darão ao menos para umas luvas?!) e tão importante se tornou que o hino do seu país não passa agora de uma canção de embalar que ele não canta porque nem sequer já sabe a letra (além de que seria uma vergonha para a sua reputação cantar semelhante infantilidade).

Atraído pela fama e convencido do seu valor, acedeu a comandar os exércitos do seu país natal (fez esse favor). Gunaldo bateu-se estoicamente até ao dia em que teve que enfrentar as hostes do país que o euralimentou e fez dele o gigante importante que agora é. Lá se aguentou como pôde até ao final da peleja – que perdeu – sem que ninguém pudesse acusá-lo de favorecer os seus benfeitores, dado que a pequenez dos liliputugueses os impede de observar com realismo a ficção (ou não será: a pequenez impede-os de observar sem ficção a realidade?! É qualquer coisa assim!).

O problema foi que na hora do espólio (que sempre premeia as hostes vitoriosas), para não ser levado como despojo pelos vencedores, Gunaldo renegou a sua pátria – Liliputugal – e juntou-se aos que considera verdadeiramente seus, aos seus pares, aos vencedores, porque, no seu esclarecido entender, um vencedor só pode estar de um lado que é o dos vencedores, nem que para isso tenha que ser um covarde, um desertor, um renegado, enfim, um traidor à pátria (minudências de somenos importância para essa raça de gente genética e intelectualmente mais evoluída). O culpado? O culpado foi o nobre que o armou cavaleiro sabendo que ele não era um comandante, e se o fosse não era certamente dos nossos.

Estes são os traços gerais da estória que o meu amigo vai publicar em livro. Mais não posso adiantar porque o autor e as editoras não mo permitem.

Estejam atentos. A primeira edição vai ser muito limitada, numerada e assinada pelo autor.

P.S.: Antes que perguntem vou já adiantando a resposta: Não, não tem desventuras, só mesmo venturas e aventuras, porque dos fracos não reza a História!

P.P.S.: Esta é uma estória cem porcento ficcionada, pelo que qualquer semelhança com a realidade será a mais pura e casta coincidência!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O homem não era tolo!...

Viajar na Internet assemelha-se muitas vezes a viajar de comboio. Olhamos pela janela e vemos a paisagem que corre sem que nos possamos deter longamente em algum pormenor com especial atenção, já que as imagens sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. A menos que olhemos bem no horizonte, onde a velocidade é mais reduzida, mas neste caso a acuidade visual diminui na proporção inversa à da distância que nos separa do objecto. Mas há sempre, e apesar de tudo, muita coisa bela que nos fica na memória. Ainda que não pensemos nelas nos dias imediatos, ocorre, porém, que nos assaltam o pensamento quando menos esperamos.

Sucede o mesmo com o que vemos e lemos na Internet quando andamos a viajar sem rumo definido! Há muitas coisas que nos agradam quando as lemos, mas como ali não há paragem limitamo-nos a um registo de memória. Um registo por vezes vago, a carvão, mas que nos permite pintá-lo mais tarde, de cores variegadas e sempre novas de cada vez que nos assalta o pensamento.

Será por certo esta uma introdução demasiado longa para a história que pretendo partilhar convosco e que li há dias numa dessas viagens longínquas que inevitavelmente me obrigaram a passar por locais que nada tinham que ver quer com a origem quer com o destino que eu almejava.

A história é muito simples e provavelmente será já do conhecimento de todos pois envolve um dos maiores génios de sempre: Albert Einstein. Também não me certifiquei da veracidade da história nem tal me pareceu pertinente ou necessário uma vez que as probabilidades de tal ter ocorrido são para mim mais do que suficientes para que reflicta sobre o assunto com seriedade.

Contava-se, então, que certo dia Albert Einstein pediu à sua secretária para distribuir um exame aos seus alunos de pós-graduação. A secretária, muito espantada com o que lia, e julgando tratar-se de um equívoco do grande mestre, dirige-se-lhe nestes termos: «Professor, estas questões não são as mesmas do exame do ano passado? Os alunos irão dar por isso!». Einstein muito calmamente limitou-se a responder: «É verdade, não se trata de equívoco nenhum. Trata-se efectivamente das mesmas questões e do mesmo exame do ano passado. Porém, embora as questões sejam as mesmas, as respostas alteraram-se!».

A espaços vem-me este excerto ao pensamento (salvo as imprecisões, já que foi redigido de memória, a partir do tal esboço a carvão) e uma coisa só me ocorre acrescentar: o homem não era tolo!...


sexta-feira, 14 de novembro de 2008

No meio de tantos… ninguém dá pela minha falta!...

Quando andava no liceu, na minha “primeira fase de estudante” – há imensos anos, portanto – tive como professor de Português um padre: o Padre Luís.

Tratava-se de um professor muito exigente e muito completo. Contava-nos muitas histórias que parecia não terem nada a ver com a matéria que estava a ser leccionada mas que produziam os seus efeitos (talvez não em todos os alunos – ou pelo menos não conscientemente – mas em mim produziam, e muitos). Uma dessas histórias podem lê-la, mutatis mutandis, no meu Blogue Eclectíssimo com o título A janela do Hospital… e foi lá publicada dentro de um determinado contexto à data (na verdade nunca escrevo por escrever, só o faço quando realmente algo me impele para tal. Hoje é mais um desses dias).

A história que hoje aqui trago, contada pelo Padre Luís, long time ago, acorreu à minha memória no início de uma aula em que o professor da cadeira que conta com cerca de cento e sessenta alunos inscritos olha para o anfiteatro e diz, convicto, dirigindo-se aos cerca de trinta alunos ali presentes, após cordial saudação: – Bom, parece que o meu relógio está um pouco adiantado!...

Posto o intróito, eis a história:

«Há muito, muito tempo numa aldeia do interior do país onde era praticada agricultura de subsistência e onde todos os habitantes eram proprietários de imensos vinhedos e produtores de saborosíssimo vinho, havia um padre que era muito querido pelos seus paroquianos precisamente porque, para combater o ócio, os ajudava nas tarefas agrícolas entre as quais se contava a vindima e a pisa do vinho.

»Ora, acontece que o padre era o único habitante daquela aldeia que não tinha vinho pelo que tinha que o comprar aos produtores. Claro que havia sempre quem lhe desse um garrafão de vinho como prémio pela sua bondade.

»Um dia um jovem lá da aldeia sugeriu que se todos dessem um garrafão de vinho ao Sr. Padre e o reunissem numa pipa, o padre ficaria contente e bem servido ao passo que os agricultores nada sentiriam nas suas abundantes adegas.

»A ideia foi aceite e aplaudida com entusiasmo por toda a aldeia. Reuniram-se em assembleia para combinarem a forma e o dia em que procederiam à recolha do vinho para o Sr. Padre. Se o dia não interessa aqui para a história já o método nos interessa o seu bastante.

»Seria colocada em cima de um carro de bois que percorreria todas as ruas, caminhos e carreiros da paróquia, uma pipa suficientemente grande para recolher um garrafão de vinho de cada produtor; na pipa seria colocado um enorme funil para que o vinho se não entornasse já que era um bem precioso; ao chegar à porta de cada um, o proprietário subiria à carroça, ergueria o seu garrafão e virá-lo-ia para o funil posto o que regressaria ao solo engrossando a comitiva que acompanharia o cortejo até ao final da “empreitada”.

»Chegado o grande dia a aldeia estava em festa. Tinha sido escolhida a melhor parelha de bois lá da aldeia e a carroça estava toda engalanada. Começou o cortejo. A carroça nem chega a arrancar e já o primeiro garrafão de vinho era despejado no interior da pipa. Era o garrafão do proprietário dos bois e da carroça, o maioral lá da aldeia.

»Só que o dito maioral, que já fizera despesa com os bois e com a carroça, pensou que acrescentar a essa despesa um garrafão de vinho era um “luxo” demasiado oneroso. Numa pipa de vinho tão grande um garrafão de água não iria notar-se. O funil era enorme, era só virar o garrafão com bastante vigor para o fundo do funil, o gorgolejar do líquido não tem cor… ninguém iria dar por nada!... Se bem o pensou melhor o fez, lá foi um garrafãozinho de água para o “mar” de vinho…

»O vizinho do lado que estudara pela mesma cartilha procedeu da mesma forma… e outro e mais outro e outro ainda; saltava-se um aqui, outro acolá – que eram raras pessoas honestas e gente de bem e consciência sempre limpa – e verdadeiro vinho (e do bom) corria pelas paredes do enorme funil o qual, sendo de metal, corria o risco de enferrujar-se após esta serventia; mas logo era retomado o vício e o mau pensamento que se repetia por ruas inteiras como que contaminados por um mesmo vírus da avareza que ia deixando as fontes mais pobres.

»Chegam os bois à abadia e com eles o vinho para o Sr. Padre. A euforia era agora grande pois que a turba se tinha avolumado à medida que cumpria a sua “piedosa missão”.

»Vem o Sr. Padre à porta certificar-se que alarido era aquele, quase desmaiando de emoção com tão generosa manifestação de solidariedade por parte dos seus paroquianos. Pedem-lhe um copo ao que ele correu a buscá-lo já com o gorgomilo a dar a dar com a sede que aquela celestial visão lhe provocara.

»Vem o padre, vem o copo e vem… a água!!!! A água, Deus do céu, da pipa de vinho saía água, tingida de vinho, é certo, mas não deixava de ser água!!!!!... Água!»