
Não sabia sobre o que escrever. Lembrei-me de um trabalho que realizei com alguns colegas durante o 12º ano, com o tema "As Actuais Relações entre Portugal e Espanha". Um dos subtemas em análise foi o Iberismo. Penso que se trata de uma questão actual e interessante que, todos os dias, desperta discussão. Assim, deixo-vos um dos textos do referido trabalho.
Iberismo
«Por iberismo, em sentido lato, denominam-se as tendências políticas que lutam pela unidade da Península Ibérica, tendências essas que atravessam toda a história peninsular. Desde o século XIX, a corrente iberista associou-se à necessidade de afirmação de Portugal e de Espanha face às outras potências europeias. No entanto, em Portugal o Iberismo nunca foi uma corrente que se evidenciou, e se teve alguma expressão em alguns momentos dos séculos XIX e XX, tal facto ficou-se a dever à necessidade de ser equilibrada a posição de dependência lusa face ao Reino Unido.
A verdade é que, historicamente, o papel do iberismo na aproximação dos povos peninsulares foi completamente irrelevante. Pelo contrário, as aproximações luso-espanholas só ocorreram num contexto de absoluto reconhecimento, por parte da Espanha, da soberania, identidade e independência de Portugal, isto é, com a aceitação da existência natural de dois Estados na Península Ibérica. Compreende-se, assim, que as primeiras grandes aproximações políticas à Espanha, durante o séc. XX, tenham sido feitas por homens inquestionavelmente nacionalistas como os dirigentes do Estado Novo, que procuraram sempre evitar qualquer união política.
Não é habitual, entre nós, reflectir sobre o “ambiente” que nos cerca e que constitui o suporte vital dos povos ibéricos.
Numa dimensão espacial, a escala peninsular obriga-nos a um olhar atento e solidário quanto ao manuseamento sustentado dos recursos naturais, renováveis e não renováveis; numa dimensão temporal, a civilização herdada que nos é comum, exige-nos, no contexto europeu e ibérico, a cooperação e a criação de estruturas sócio-económicas e de convivência que fortaleçam o bem-estar, a igualdade ou equidade, tendo em vista a verdadeira fraternidade procurada por iberistas utópicos de ontem e de hoje.
É necessário superar, de uma vez por todas, o desconhecimento mútuo. Para os espanhóis, o distanciamento secular com que comtemplam Portugal e o desconhecimento tão generalizado das suas paisagens, da sua língua e das suas gentes, deveria ser motivo de vergonha. Clarín, iberista convicto escrevera há mais de um século: “Poderá ser discutível se Espanha e Portugal se deveriam juntar num só Estado a breve prazo; não cabe porém discutir se convém a dois povos irmãos e vizinhos se conheçam melhor e, por conseguinte, se estimem mais do que até agora”.
Todas as propostas relacionadas com o iberismo, nas formulações mais historicistas e antropológicas ou mesmo nas mais progressistas e federalistas, se apoiam num quadro de referências geográfico-culturais que todos conhecemos como Península Ibérica. Em todas elas, a Ibéria, ou antes, a mãe Ibéria aparece como suporte e substrato comum.
Castela aparece em alguns textos e escritores portugueses como a “sombra negra da nossa história”. Atribui-se a frase e a ideia de Eça de Queirós a quem doía profundamente a Península (“Oh esta Espanha!...Ah Portugal pequeno, que todavia és doce para os pequenos!”). Foi-se impondo em Portugal uma interpretação reducionista e simplificada da realidade histórica e geográfica, sublinhando sem limites a hegemonia de Castela e mostrando, em contrapartida lógica, uma “simpatia fraterna” para com a Catalunha e a Galiza.
Os portugueses não compreendem que os Filipes não os governaram como castelhanos mas, pelo contrário, como donos e herdeiros de uma monarquia plurinacional. Para os inimigos da União, tornava-se mais cómodo e mais eficaz para os seus objectivos referirem-se à Monarquia como Castela. O vizinho devia continuar a ser castelhano para poder ser inimigo. Não se pode estranhar, portanto, que o Sebastianismo, o mito do “rei encoberto” que regressaria a salvar Portugal e a recuperar a sua grandeza imperial, cobrasse um dividendo político e se convertesse num instrumento muito útil para manipular o sentimento popular orientando-se no sentido de uma oposição contra Madrid e contra a opressão “castelhana”.
Em meados do séc. XIX, insistem nesta linha toda uma série de opúsculos anticastelhanos e refutações anti-ibéricas que exaltam a grandeza de Portugal a quem “coube a glória de caminhar à cabeça da civilização europeia” e desvalorizam, severa e duramente, os iberistas que pretendem persuadir os portugueses a que se unam voluntariamente a Espanha. A atitude portuguesa manterá até hoje essa identificação de Castela com Espanha.
Com a eliminação das fronteiras, a União Europeia estimularia a convergência ibérica. Desde a adesão à Comunidade Europeia e da criação do Mercado Único estabeleceram-se formas distintas de colaboração que multiplicaram contactos públicos e privados entre Espanha e Portugal, animando em quase todas as direcções as relações bilaterais e regionais. É neste contexto que surge, com relevância, a cooperação transfronteiriça. Antes ou depois, teremos que enfrentar, espanhóis e portugueses, o ordenamento do território à escala ibérica e, com maior urgência, problemas de ordenamento transfronteiriço. Este é um dos reptos mais difíceis do iberismo do séc. XXI.
No processo de unidade peninsular, a história falhou inapelavelmente em favor da separação.
Chegou a hora da cooperação contínua. Chegou o momento de pôr de lado a arrogância e a indiferença espanholas e a desconfiança portuguesa. Unamuno aludia, há um século, “à petulante soberba espanhola, de um lado, e à mesquinha desconfiança portuguesa, de outro”, como responsáveis do alheamento espiritual e da falta de comunicação cultural. Em Espanha subsiste a ideia de que Portugal resulta de um fracasso histórico; em Portugal, teme-se a invasão espanhola.
Chegou o momento de partilhar a pluralidade e a diversidade cultivada na Península pela vivência secular de povos e gentes. Há que se valorizar esta teia cultural, onde as paisagens falam com uma linguagem carregada de símbolos geográficos da passagem e do trabalho dos seus homens e mulheres e as línguas transmitem-nos, na raiz das suas palavras, os vestígios distantes e variados que conferem coesão à civilização ibérica. Paisagens culturais e línguas unidas compõem um património imaterial e inatingível sobre o qual repousa uma boa parte do conhecimento e da compreensão da diversidade peninsular, aproximando-nos. Não podemos apenas contentar-nos com a memória. Devemos construir o futuro. Esse sim, é o Iberismo de hoje.» In As Actuais Relações entre Portugal e Espanha, ESRT, 07/08